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ÁGUAS INTERNACIONAIS

Espalhei o meu coração no asfalto sempre que pude. Não quero ser rude, mas é assim que penso e que ajo ainda, ainda que nem sempre deva, mas ajo, eu acho que sim, é assim que tem que ser. Apocalipso imenso quieto num canto. Estreito, acuado e sem jeito, mergulhado até o gogó no prejuízo. Não sei de nada, não sei, repito e pito ininterruptamente nos dias mais quentes do mês - nos frios, não. O sossego é feno nesse tenso ambiente, recosto a carcaça e aproveito a viagem. Em poucos dias, rezo, chegará Frembentes, e lá serei enfim quem sempre quis ser. Ou quem eu quiser. O que vier primeiro.

Os demais passageiros se demoram nos olhares a mim. Lambo os bigodes tomando sopa mesmo assim. Bailo solito no convés enegrecido de trago às meias-noites. Chamo a lua pelo nome. Me desaprova o Capitão, isso eu vejo no olhar maduro que me atira. Um peso de morte faísca nas orbes, que rolam torcidas por dentro da cabeçorra compacta e forte, os maxilares ardendo em brasa no sangüíneo das barbas, as arcadas lascando-se entre si em fúria morna. As bigornas latejando ao som das baleias, das sereias e dos fantasmas dos piratas, insistentes a cantar.

Eu procuro não chorar de saudades de casa toda vez que corto os cabelos e os dedos aos golpes de faca. Essa navalha negociei numa janta outro dia. Dei-lhe um pouco das sementes que comigo trazia. Desvalorizaram por vir na tanga. Alternativa outra não me havia, senão parece claro supor que em outro lugar as traria. Pois não pude. Então não veio. Não houve uma compreensão, então perdi. Algo perto de metade da metade do lucro pretendido. Já é preocupante para todo e qualquer transeunte. Pra mim é mais: não sei porque estou aqui, mas sinto-me certo de que àqui não pertenço.

Eles todos se parecem. Em feições. Nos hábitos. Na conversa que tramam. Na língua que falam. Comunico-me por gestos desde que acordei e comecei a perceber o mundo. Não me cobrem o peito grossos fios crespos, nem se pode dizer do meu nariz que é adunco. É grego meu perfil. Período Helênico. Meio barroco. Eles, todos aquilinos e atléticos, comem tâmaras e ameijoas. Um dia as frutas vão acabar, eu sempre penso. Eles despreocupam. Parecem bastante crentes de que terão o suficiente para comer até Frembentes. Eu, de tudo, prefiro os mexilhões e evito, por princípio, os berbigões. Eles devoram qualquer coisa.

Usam barretes, carecas e são mulheres. Alguns. Crianças. Bem poucos. Uns vinte, talvez. Lhes falta algo de quente aos rostos. Os olhos são breves e fracos, as bocas mal se movem enquanto falam, os ouvidos balançam ao me escutar. Não riem nem sorriem e pranteiam copiosamente como se para seguir vivendo isso fosse absolutamente indispensável. Estão sempre imundos, não importando quantas vezes se utilizem dos lavabos por dia. Há muito de podre em suas peles, algo que verte de seus poros não está totalmente certo. Não está nada certo.

Não tenho a mínima idéia de quem sejam. Não entendo uma palavra do que falam, ainda que às vezes ache os fonemas por demais familiares aos meus pavilhões. Um sábado anoiteceu mais cedo e eu ouvi que todos diziam 'falocentrismos' quando enxergavam o mar, lindamente dourado pela curiosa coloração lunar. Já tentei aprender os substantivos e verbos mais básicos os observando, mas não consigo entender a lógica da sua gramática. É como se as palavras mudassem de significado a cada nova frase, num randomismo semiótico enervante e assustador. É como se, a cada novo raciocínio, não só o código, mas também todos os seus elementos se alterassem por inteiro e, ainda assim, todos fossem capazes de entendê-los perfeitamente.

São como formigas no trabalho: lavouram incansáveis sem que exista viv'alma a vigiar-nos. Utilizam-se de um depósito formidável de madeira escondido no porão para construir uma estrutura assombrosamente complexa, cuja finalidade foge completamente ao meu entendimento. Vejo-os submetendo a máquina a um sem-número de provas dia após dia, sem ter qualquer idéia, entretanto, do que, afinal de contas, testam.

Assim como eu, o Capitão nada faz para interferir na produção. Não parecem vir dele as ordens que aqueles trabalhadores todos cumprem, rigorosos e compenetrados na sua execução, quase tementes aos possíveis destinos que aguardavam os que não se dedicarem com afinco àquela tarefa. Penso às vezes que fala minha língua, o Capitão. Mas ele não diz nada. Nem pra mim nem pra nenhum deles. Talvez fale ainda uma terceira língua e não entenda nem a mim nem a eles. Mas como ele sabe este tanto de mim não sei: nunca o ouvi tentar. Aliás, o que presumo dele também é baseado em nada: senti-me desde sempre intimidado pela sua figura corpulenta e séria atravessando os corredores entre os cômodos, impávido como um transatlântico sobre o pacífico. Jamais lhe dirigi a palavra. Jamais lhe dirigi um olhar de mais perto, com medo de ser flagrado fitando-lhe os olhos. Fritar-me-ia em óleo quente, estimo. Há algo de verdadeiramente selvagem na sua figura e, por isso, conservo distância respeitosa.

Abstenho-me de eventuais enfrentamentos, esperançoso de viver o necessário para chegar a Frembentes. Única entre todas as palavras cambiantes dos soturnos que mantém a significância, certamente representa algum tipo de xangrilá. Um paraiso. Um nirvana. Um oxalá. Um axé. Um éden. Um epahei. Um eita. Um oia. Um upa. Um oba. Um alapucha, até. Um lugar onde, definitivamente, se quer estar.


[17/06/2005 - 01h38] . [] . [envie esta mensagem]


IMPAVIDEZ ou ARROJO

The weakheart must fall and the righteous shall stand

Johnny Clarke

Reuniam-se sempre às sete, toda sexta, para apedrejar os mortos. O cemitério populoso, as cabeças cobertas vistas das janelas de todas as casas da cidade. Ninguém queria olhar nos olhos. Ninguém sabia olhar nos olhos. Ninguém sabia. Caía um silêncio no fim do dia e depois o assombro reinava. O galope manso, militar. As portas fechadas. Poeira vermelha levantada. Os mantos escuros, molhados do mar. Quarenta ou cem homens, jamais quiseram contar. Vinham de algum lugar. Ninguém queria perguntar. Ninguém sabia perguntar. Ninguém sabia. Subiam a colina calados, lustravam as lápides e varriam os túmulos. Então todos urravam. Tiravam lascas de rochas dos bolsos e contra o chão arremessavam. Depois se ajoelhavam e ficavam imóveis até o segundo vento passar. Depois partiam.

Naquele semestre tive poucas sensações. Meus dentes presos a outros dentes que não queriam se soltar. Um procedimento de risco, o médico não quis se arriscar. Precisei aprender a dividir. Ela jamais se queixou de mim. Uns olhos apertados de quem não gosta de luz, a pele pintada de leopardo, o cheiro de coração batendo fraco dentro do meu peito. Quando ela acordou e eu não estava mais ali, fui quem mais sofri. Foi ela quem se foi e eu quem mais senti. Meu quarto sem porta, coberto de fotos que jamais tirei. Rostos que jamais vi. Pessoas que não conheci. Nenhuma das minhas lembranças pertence a mim.

Um dia inteiro no hospital lambendo latas usadas de atum para sobreviver. Faltou-me ar, água e modos, mas não deixei que nada disso me afinasse o ânimo. Lá pra dentro, alguém paria uma criança morta sem chorar sequer uma gota. Era cinza, menor do que uma carteira e tinha asas. Eu pedi de presente mas não me deram. Era meu aniversário.


[14/06/2005 - 19h21] . [] . [envie esta mensagem]


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